sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Tão linda com cabelos despenteados

A única janela

Torna-se suficiente para

Que a luz do sol entre.

Invade sem calma, reflete-se

Em milhões de filetes invisíveis,

Rasgando meus olhos que acabaram de acordar.

Resistente, olho ao redor.

Livros de pintura jogados,

Roupas sujas amontoadas,

Garrafão d’água vazio,

Poeira e restos,

Ausências...


No pequeno cômodo em que

Encontro-me,

Mesmo abarrotado

Sem o mínimo espaço,

Sinto estar vazio.

Sinto que falta

A cor gelo

Que de tão branca tem

Visível suas veias.

Faltam os ecos das risadas

Escandalosamente soltas.

Falta o cheiro e a força

Daquela vida

Tão linda com cabelos despenteados.


Levanto-me e preparo o café.

Estico a coluna fraturada,

Volto-me a sentar no colchão,

Acendo um cigarro.


Penso na vida que vive

Lá fora, ávida por envelhecer.

Penso que talvez ninguém

Queria saber o que estamos fazendo

Aqui,

Neste mundo ingrato por tantos mistérios.

Sinto-me estranho, inseguro.

Como não há espelhos,

Imagino como devo estar.

E nesta projeção de mim mesmo,

Estou fora de esquadro,

Como Quasímodo,

Como o senhor Friedman.


O mundo estranhamente

Está sorrindo sem mim.

Está vivendo, multiplicando

Suas neuroses sem mim.

Permaneço despreocupado

Em cima do colchão coberto de esperma e

Ácaros.


Dou uma risada de canto de boca,

Cínica, como quem está para

Reviver.

O tempo de estranhamento

Está para acabar,

Pois alguém tão estranho

Quanto eu

Abre a porta.

Sorri por detrás do seu Ray Ban

E me permite invadir seu corpo

Quente e iluminado.

Ficaremos deitados e sorrindo

O pouco que resta de nossas vidas.

Deixem que matem e morram

Por dinheiro e poder.

Existir somente

Basta-nos!


(Jorge Elô)

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