A única janela
Torna-se suficiente para
Que a luz do sol entre.
Invade sem calma, reflete-se
Em milhões de filetes invisíveis,
Rasgando meus olhos que acabaram de acordar.
Resistente, olho ao redor.
Livros de pintura jogados,
Roupas sujas amontoadas,
Garrafão d’água vazio,
Poeira e restos,
Ausências...
No pequeno cômodo em que
Encontro-me,
Mesmo abarrotado
Sem o mínimo espaço,
Sinto estar vazio.
Sinto que falta
A cor gelo
Que de tão branca tem
Visível suas veias.
Faltam os ecos das risadas
Escandalosamente soltas.
Falta o cheiro e a força
Daquela vida
Tão linda com cabelos despenteados.
Levanto-me e preparo o café.
Estico a coluna fraturada,
Volto-me a sentar no colchão,
Acendo um cigarro.
Penso na vida que vive
Lá fora, ávida por envelhecer.
Penso que talvez ninguém
Queria saber o que estamos fazendo
Aqui,
Neste mundo ingrato por tantos mistérios.
Sinto-me estranho, inseguro.
Como não há espelhos,
Imagino como devo estar.
E nesta projeção de mim mesmo,
Estou fora de esquadro,
Como Quasímodo,
Como o senhor Friedman.
O mundo estranhamente
Está sorrindo sem mim.
Está vivendo, multiplicando
Suas neuroses sem mim.
Permaneço despreocupado
Em cima do colchão coberto de esperma e
Ácaros.
Dou uma risada de canto de boca,
Cínica, como quem está para
Reviver.
O tempo de estranhamento
Está para acabar,
Pois alguém tão estranho
Quanto eu
Abre a porta.
Sorri por detrás do seu Ray Ban
E me permite invadir seu corpo
Quente e iluminado.
Ficaremos deitados e sorrindo
O pouco que resta de nossas vidas.
Deixem que matem e morram
Por dinheiro e poder.
Existir somente
Basta-nos!
(Jorge Elô)
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