sexta-feira, 6 de julho de 2007

Testamento


Agora que meu corpo

Decompõem-se dentro

Deste caixão de madeira,

Deixo ao meu filho

Este testamento.


Deixo-lhe o

Mundo em caos,

E debaixo do meu colchão,

Algumas playboys.


Deixo-lhe hortelã

Para que faça um chá,

E contas pregadas na porta

Da geladeira.


Deixo-lhe Marx

Mofando na estante e

Uma TV em cores.


Deixo-te livre para decidir

Sobre meu corpo,

Assim como sobre o cardápio

A ser servido no dia

Do meu velório.


Deixo-te livre para escolher

O destino de minha alma,

E a forma de sofrer os castigos.


Estás livre para me

Vestir o corpo com terno

Ou me enterrar nu.


Deixo-te livre.

Deixo-te ainda o cheiro do

Meu cabelo após o banho.


Deixo-te vivo. Deixo-te capaz de viver.


Só não te deixo dinheiro,

Pois gastei tudo nesta vida

O que acabou me matando.


(Jorge Elô)


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